O VAZAMENTO E O JABUTI
Jabuti, na gíria parlamentar, é um artigo que não tem relação com determinado projeto de lei, mas foi inserido nele para tentar pegar carona. A expressão vem de um dito popular (“jabuti não sobe em árvore. Se está em uma, é porque alguém o colocou ali”). Em 2016, por exemplo, nossos deputados estavam votando mudanças em impostos – e inseriram no projeto um artigo autorizando o Parlashopping, um shopping center de R$ 1 bilhão a ser construído na Câmara. A manobra foi descoberta e a obra não saiu, mas de lá para cá houve vários outros jabutis como esse.
Os EUA também têm os seus, e o relatório sobre OVNIs é um deles. A lei orçamentária HR 133, aprovada pelo Congresso americano e sancionada pelo então presidente Donald Trump em dezembro de 2020, autoriza o governo a gastar US$ 2,3 trilhões em suas atividades, incluindo US$ 900 bilhões em auxílio contra a pandemia e US$ 740 bi em despesas militares. Só que, escondido nas 2.124 páginas dessa lei, há um baita jabuti. Um artigo diz que o Departamento de Defesa e as agências de inteligência dos EUA só receberiam financiamento caso publicassem uma análise detalhada dos fenômenos aéreos não identificados documentados pela Marinha: de onde tinham vindo, justamente, todos aqueles vídeos vazados nos anos anteriores. Por isso, e só por isso, o relatório foi feito.
Ele é a maior revelação do tipo desde 1969, quando foi publicado o Condon Report, coordenado pelo físico nuclear Edward Condon (um dos participantes do Projeto Manhattan, que levou à criação da bomba atômica). O documento mapeia 12.618 incidentes registrados a partir de 1947, quando os EUA começaram a documentar casos do tipo. Classifica 701 dos objetos voadores como “não identificados”, mas traça um limite – diz que nada sugeria a presença de aeronaves de outros planetas. Nas décadas que se seguiram, as investigações sobre OVNIs foram ficando marcadas como coisa de maluco e se tornaram um tabu entre os pilotos militares, que não se sentiam à vontade para reportar avistamentos estranhos.
Esse cenário começou a mudar em 2017, quando o americano Luis Elizondo se desligou do Pentágono – e revelou que havia dirigido o AATIP (sigla em inglês para “programa de identificação de ameaças aeroespaciais avançadas”), um programa secreto de análise de objetos voadores não identificados. Naquele ano, ele entregou ao New York Times três vídeos gravados por caças da Marinha em 2004, 2014 e 2015.
O de 2004, em especial, chamou a atenção por um incidente difícil de explicar. O vídeo mostra uma imagem de infravermelho em que se vê um objeto oval, com aproximadamente 14 metros de comprimento, voando a 185 km/h. Ele realizou manobras aparentemente impossíveis, do ponto de vista aerodinâmico, quando foi perseguido por dois caças F/A-18 no Oceano Pacífico – ambos os pilotos descreveriam o objeto com sendo branco, sólido, sem asas, para-brisa ou motores visíveis. O caso ficou conhecido como Incidente Nimitz (pois o avistamento ocorreu próximo ao porta-aviões USS Nimitz). Essa cena se repete, de forma quase idêntica, no avistamento de 2015. Nele, os pilotos dizem ver “toda uma frota” de objetos voadores (veja quadro abaixo).
Pressionados pelas revelações, os militares reagiram: em março de 2019, a Marinha dos EUA criou um processo interno para que seus pilotos relatassem incidentes envolvendo objetos voadores incomuns, e a Aeronáutica criou um processo similar em 2020. O Pentágono resolveu desacreditar Elizondo e passou a negar que ele tivesse trabalhado no AATIP (procurado pela Super, Elizondo não retornou os pedidos de entrevista). Mesmo assim, os militares confirmaram a autenticidade dos vídeos.
Os objetos são estranhos e voam de formas mais estranhas ainda. Mas nada do que foi divulgado prova que eles sejam de origem alienígena. Ao fomentar esse tipo de ideia na cabeça das pessoas, os militares americanos podem estar tentando fazer outra coisa: desviar a atenção de eventos puramente terrenos.
